Por Leonardo Vila Nova
Quando me apontaram à mesa, disseram: “É ele!”. Fui levado
para cumprimentá-lo, e ele, prontamente e muito atencioso, apertou minha mão e
se dispôs a conversar, logo mais. Fiquei por alguns minutos na dúvida se
realmente era dele que falavam. E, na sequência, veio a confirmação: “É ele,
sim!”. Surpresas à parte, vamos à apresentação: Benedito Manuel dos Santos tem
94 anos e é considerado o sanfoneiro de oito baixos mais velho do Brasil. Ele
esteve, nesta sexta (2/8), em Triunfo, durante o FPNC, para receber uma belíssima
homenagem. Ganhou uma nova sanfona de oito baixos para continuar fazendo o que
sempre gostou em toda a vida: tocar!
É espantoso como a aparência e o vigor não entregam a idade
que seu Benedito tem. Agilidade e firmeza de gestos, boa conversa (daqueles que
começam a contar histórias e todos ficam em volta, ouvindo) e um jeitão
caloroso de ser. Natural de Flores (município vizinho a Triunfo), seu Benedito
não se lembra ao certo quantos anos tinha quando começou a tocar, mas sabe que
era muito jovem. “Eu aprendi sozinho. Fui lá, peguei e toquei”, conta, sem
cerimônias, sobre sua desenvoltura com o instrumento. “Já toquei muito nos
cabarés por aí, nos forrós. Hoje em dia, não toco profissionalmente, mas se
tiver uma dança, eu vou lá e toco!”. Ele considera muito fácil tocar sanfona.
Na família, apenas um filho sabe tocar, mas, com um porém. “Ele toca outra
sanfona. A de oito baixos, só eu mesmo”.
Entre aqueles que já viram o dedilhar de seu Benedito, um
foi Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, que conhecia o seu pai. “Lampião era
gente boa, mas seus cangaceiros, não. Se você tivesse um troquinho de nada, era
capaz deles baterem em você, pra tomar!”, relembra, entre as histórias que
conta do bando. Seu Benedito é uma dessas joias raras, que a família cuida com
zelo, inclusive atendendo ao seu apelo por uma lapadinha de cana. “Bebida não
faz mal. Sempre tomei!”, diz ele, após um gole bem disposto, para aquecer os
dedos e se preparar para tocar. Ele tem um xodó, que é sua sanfona, comprada em
1942, em Triunfo, a seu “Antônio Migué”. Ela custou 150 mil réis, segundo Seu
Benedito. O ciúme com ela está na cara. Ela vive trancada, a cadeado, numa
pequena maleta de metal. Só ele pode tocá-la e ela vai com ele para onde ele
vai. Só ele manuseia a maleta e faz questão de tirá-la de dentro e
guardá-la. ”Menino só serve pra bulir!”,
explica seu Benedito sobre deixar a sua sanfona tão bem escondida.
Seu Benedito ganha uma nova sanfona de oito baixos (Foto:
Costa Neto)
Mas, dessa vez, uma nova sanfona chegava até ele. Uma Ronner
alemã, modelo beija-flor, que recebeu das mãos de Anselmo Alves e Lêda Dias, do
programa O Fole Roncou. Ao ganhar o presente, não se fez de rogado e pôs,
literalmente, o fole pra roncar. Cercado por dezenas de curiosos, amigos e
admiradores, ele fez o que melhor sabe. Entre algumas músicas, tocou “Chorão”
de Luiz Gonzaga, e “O canto da ema”, de Jackson do Pandeiro. Seu Benedito é
daqueles que se anima e não consegue mais parar. Empolgado que só ele, já
prometeu até servir um bode gordo, em agradecimento àqueles que lhe
presentearam.
No primeiro contato com a nova sanfona, ele, curioso,
analisava cada detalhe e comentava aspectos técnicos de forma natural e
espontânea. Disse que ainda ia aprender como se tocava nessa nova. Que nada!
Alguns segundos e já estava ele, desfiando músicas a torto e a direito. “Eu não
tenho muito costume com essa, não, mas o som é bom. A bichinha é aprumada!”.
Pronto! Sanfona aprovada. Agora, seu Benedito tem todo o tempo pela frente pra
tocar nessa e na sua sanfona velha de guerra. E nós, daqui, ficamos admirando
esse verdadeiro artista.
Do Festival Pernambuco Nação Cultural


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