Isso é que chamo de estilo próprio


Já viajei por por vários lugares, conheci pessoas interessantes, únicas e com identidades diferenciadas.

Na pesquisa que faço rastreando a net, uma matéria do NE10 numa boate gay me fez entender o quanto somos diferentes e cada um tem seu próprio estilo, é o caso de Degrau, leia o texto e edição do Davi Lira.

(Foto: arquivo pessoal | Edição: Davi Lira/ Especial para o NE10)

Não há desvios. Enquanto ela dança, ela apenas dança. A performance dura mais de seis horas, ocorre de forma quase ininterrupta. No corrimão da escada que dá acesso ao primeiro piso, não há pausas prolongadas com conversas, nem espaço para bebidas e cigarros. Em uma posição privilegiada da pista eletrônica principal do Clube Metrópole (zona central do Recife), Sheila Braga, 23 anos, transforma-se em "Degrau: a diva da escada".

Ela não é paga para dançar, nem tem a carteirinha VIP da casa norturna. Dança por prazer, sozinha. Há mais de quatro anos frequenta essa que é a maior boate gay de Pernambuco, com capacidade para 1.500 pessoas. "Toda a sexta e todo sábado estou aqui na 'Metro', chego à 0h30 e saio depois das 6h; quando não venho é porque estou doente. É a minha segunda casa", diz Degrau.

Ela, de fato, sempre está lá se envolvendo e dialogando consigo mesma. Não há quem não se fixe em seus movimentos, mesmo espremida no suporte de madeira da escada. "Quando preciso ir ao banheiro, sempre volto rápido; no caminho de volta vejo que a escada fica vazia e corro pra lá", diz. Os visitantes menos regulares da boate, formada majoritariamente por homens, espantam-se com a presença constante dela naquele espaço de passagem tão movimentado.

Outro ponto que chama atenção de todos é a precisão no ritmo de Degrau. "Surgiu de mim, eu não me inspirei em ninguém", afirma. Alguns ainda chegam a cumprimentá-la, elogiar a elasticidade das mãos e das pernas, que deslizam freneticamente pelo corrimão ao som da batida pop. Mas ela não guarda nome, nem rostos, seu foco é apenas a dança. "Ali é o meu mundinho; na escada eu descarrego tudo: tensão, medos e expectativas", diz Degrau.

Sheila, no entanto, reconhece que aqueles globos com luzes inebriantes não fazem parte da vida cotidiana. "Não tenho um vida de princesa", diz. Atualmente, a jovem se foca nos seus próximos planos de emprego e estudo. "Vou voltar a trabalhar como vendedora no Shopping Recife e me preparar pra entrar no curso de Museologia da UFPE, mas queria mesmo era Psicologia", fala.

Fã confessa da atriz americana Scarlett Johansson, Sheila se diz pouco atrativa fisicamente, mas com um imenso sex appeal em volta de si. "Não tenho um corpo forte, nem curvas, peso 45 kg e tenho 1,65 m de altura", comenta. "No entanto, tenho o potencial de uma mulher que já saiu na Playboy; os homens me acham muito quente", complementa Sheila, misturando-se à Degrau.

Isso. Ela não percebe, mas é duas em uma. A Sheila desempregada, com uma desilusão amorosa de um ex-namorado se foca no gosto das coisas pelo olhar, e se chateia com movimentos bruscos que causam barulho. Degrau, a diva sóbria, curte som alto e é 100% sensualidade. "Tenho sede de escada e sexo, mas um sexo muito mais sensual; infelizmente as pessoas ainda confundem as coisas: sou promiscuidade zero, não curto vulgaridade", afirma Degrau.

Ela diz que na boate, o propósito dela é mesmo a diversão. "Os gays me excitam, eu gosto de ver eles dançando e se beijando; mas eu vou pra lá mesmo para sentir o som", comenta Degrau. Já Sheila é um pouco mais tímida. "Sou libriana, sou bem verdadeira", fala já emendando sobre o novo namorado mais velho que está de caso há 2 meses. "Ele é sociólogo, é atencioso e cuidadoso, acho que ele me entende", diz Sheila.

No entanto, o novo amor ainda não foi convidado por Sheila para frequentar o espaço da Degrau, muito menos teve o prazer de assistir a uma dança íntima de alguma das duas. "Ainda não dancei para ele", fala Sheila, já deixando se envolver pela Degrau. Sim, parece que a diva das escadas tem mais força junto à personalidade da jovem, que vive apenas com a mãe, já que seu pai faleceu há alguns anos, vítima de problemas pulmonares.

"Antes ficava até chateada com todo mundo me perguntando por que é que eu ia tanto pra Metro dançar na escada, mas pra mim a resposta sempre foi muito simples: eu focava em mim, na minha diversão", diz.

Segundo ela, seu posicionamento é muito distinto das demais pessoas que vão à boate. "A grande maioria que tá lá vai com um interesse sexual, eles não vão sentir eles mesmos; pra mim isso é carência de personalidade, medo e angústia de se conhecer de verdade", finaliza essa fiel admiradora do americano David Lynch, um cineasta que encara o duplo não como antítese, mas como reflexo.

Postar um comentário

0 Comentários