PROFISSÃO LAÇADOR//Número de motos em Serra Talhada é notícia no Brasil

Depois que o prefeito Carlos Evandro ter dito que o número de carros era maior que o de Petrolina, agora é vez das motos em Serra Talhada, matéria de o Globo.

SERRA TALHADA, PE. Em vez de quatro patas, duas rodas. Já chamado de “volkswagen do sertanejo”, o jumento começa a dividir a paisagem do semiárido com o colorido reluzente das motos que levantam a poeira no meio da caatinga. São tantas que já superam até o número de automóveis no agreste e nos sertões: 23.221 motocicletas foram licenciadas pelo Detran no primeiro semestre deste ano, contra 12.502 carros naquelas regiões, a grande maioria destes concentrada em áreas urbanas.

Em Serra Talhada, a 418 quilômetros de Recife, elas já somam 10.739, para uma população de 85 mil habitantes. Isso sem falar nas menores, conhecidas por “cinquentinhas”, que não exigem documentação dos órgãos oficiais. É a maior frota de motos do sertão pernambucano e a décima segunda do estado.

No interior, elas vêm ocupando cada vez mais o espaço antes dominado pelos jegues. Resultado: sem serventia, os bichos começaram a se espalhar e viraram mais um problema de trânsito para o poder público. Eles penam pelas cidades e pelo asfalto das rodovias federais que cortam o semiárido. Não há estatísticas que comparem o antigo com o novo meio de transporte.

Mas uma contagem feita pelo GLOBO, ao longo dos 256 quilômetros que separam o município de São Caetano (ainda no agreste) ao de Serra Talhada (no sertão), mostrou a prevalência das motos: 65 no percurso, contra 31 jumentos conduzidos nos acostamentos pelos donos. Outros 42 foram observados soltos ao longo da BR-232, oferecendo risco para os motoristas.Três outros mortos por acidente foram encontrados no mesmo caminho.

O problema está se agravando tanto que nos quadros da prefeitura de Serra Talhada já consta um cargo curioso entre os servidores do poder público: o de laçador. E ele é tão necessário hoje que, no próximo concurso da prefeitura para o preenchimento de 400 vagas, há seis para laçadores, aqueles peões que laçam o gado com a corda. No caso de Serra Talhada, laçam os jumentos.

— A lei exige concurso, que será aberto. Não sei os critérios que a empresa encarregada usará para contratar os laçadores, que são homens do mato, normalmente analfabetos — diz o prefeito Carlos Evandro (PR), de Serra Talhada, onde as pessoas que não sabem ler na área rural ultrapassam 70% da população.

Natural da cidade, Evandro acompanhou a mudança no principal meio de transporte que, segundo ele, foi radical nos últimos cinco anos: — Antes, jegue nessa terra era ouro de lei. Hoje, tem de monte “bamburrando” (circulando em quantidade) por aí e ninguém quer, porque todo mundo só anda de moto.

Por semana, 50 pessoas acidentadas

A prefeitura tem outro motivo para preocupação: o excesso de motos circulando na cidade, das quais cerca de mil pertencem a mototaxistas, muitos clandestinos. Chefe da 6ª Delegacia da 11ª Superintendência da PRF — com jurisdição em dez municípios — o inspetor João Ernande de Bezerra está querendo contratar 25 guardas de trânsito para disciplinar os motociclistas que circulam na cidade. Da mesma forma que fez com os 150 carroceiros que trabalham no Centro, carregando frete em carroças puxadas a cavalo ou jumento.

Todos cadastrados na prefeitura.

— As carroças e os jumentos dão menos trabalho. Ninguém morre em acidente de carroça. Mas desastres com motos são diários. A quantidade de motos explodiu, mas falta fiscalização.

Quando começar a doer (com multas) nos bolsos, os motoqueiros vão se disciplinar — diz Evandro.

Em Pernambuco, as motos licenciadas no Detran no primeiro semestre somavam 46.073, das quais 29.665 circulam no interior, sendo 78,2% no sertão e no agreste, onde o jumento era muito solicitado no passado por moradores das áreas rurais. No primeiro semestre de 2010, o número de motos no sertão era entre 17% (na área do São Francisco) e 20,8% (em outras áreas, como Sertão Central, Moxotó e Pajeú).

As motos se multiplicam na mesma proporção do despreparo para pilotá-las. Para o Coordenador de Gerência Regional de Saúde do Estado em Serra Talhada, Clóvis Alves de Carvalho, acidente de moto no sertão é um problema tão grave de saúde pública que deveria ser tratado como uma epidemia.

— No Hospital Regional, atendemos, por semana, uma média de 50 pessoas que sofreram acidentes com motos.

Por mês, fazemos cerca de 150 cirurgias traumatológicas, necessárias devido a desastres com motocicletas — conta o gerente da Geres, que abrange dez municípios sertanejos.

Segundo o diretor clínico do Hospital, Tales Couceiro, a média de mortos chega a dez por mês, todos com idades entre 18 e 30 anos. Ele disse que em um só fim de semana, teve casos graves como lesões na coluna e pessoas que ficaram paraplégicas.

— Cerca de 80% dos acidentados que recebemos no setor de traumatologia vêm de motos — comenta. — Tivemos casos de alguns que morreram na primeira viagem — diz o médico.

No ano passado, a Secretaria de Saúde de Pernambuco publicou um estudo mostrando que em apenas nove anos, o risco de morrer em acidente de moto no estado ficou quatro vezes maior. Em 2010, a Fiocruz divulgou pesquisa mostrando que há cidades no interior onde o índice de mortes por motos (11,67 por cem mil) é onze vezes maior do que o registrado na Região Metropolitana. A Secretaria estadual computou indicadores ainda piores: em Camocim de São Félix, essa proporção chega a 37 pelo mesmo número de habitantes.

Em Serra Talhada, a sociedade civil criou o Movimento Vítimas da Imprudência, que reúne escolas, profissionais liberais, comerciantes e Ministério Público e pôs uma urna para receber denúncias sobre motociclistas imprudentes.

Aos 40 anos, guiando motos desde os 14, a comerciante Maria Vaneide de Barros perdeu uma irmã em acidente com moto, e como pedestre já foi atropelada por uma. Usa o transporte inclusive para pegar o filho na escola: — Não sinto segurança para andar na cidade. Precisamos da moto, mas precisamos fazer algo para que a realidade não se torne tão desastrosa.

Vítima de acidente de moto, o fazendeiro Homem Bom Magalhães, o Bonzinho Magalhães, fez um desabafo em versos: “O trânsito de Serra Talhada mutila mais que a guerra/ os motoqueiros malucos destroem a população da terra/ Não respeitam a vida de um cidadão comum/ Atropelam, matam, morrem e desmontam qualquer um”.

Na semana passada, ele se encontrou na estrada com o agricultor Genival Freitas da Silva, de 39 anos, morador do Sítio Salgado, no município de Sertânia. Proprietário dos jumentos Moreno e Rodrigão, ia com a família, de carroça, para uma pescaria. Genival tem moto em casa, que comprou por R$ 2,5 mil à vista, mas só a usa no fim de semana, para ir à cidade: — Gosto mais da máquina. Estou com a perna queimando de tanto roçar no jegue. Mas moto quebra, gasta combustível e é cara. Para andar no mato, ainda prefiro o jegue.


Profissão: laçador

‘Jumento é fácil. Difícil é cachorro brabo’

SERRA TALHADA, PE. Profissão: servidor público. Função: laçador.

Local de trabalho: prefeitura. Pode parecer curioso. Mas essa é a ficha de José Nildo Pelônio da Silva, de 49 anos, contratado para laçar animais, principalmente jumentos que começaram a proliferar nas ruas de Serra Talhada depois da disseminação das motos.

Ele não é funcionário efetivo e deverá se inscrever no concurso que a prefeitura pretende realizar em agosto. O edital oferece seis vagas para laçadores. Na semana passada, ele percorria a BR-232 a bordo de um caminhão boiadeiro da PRF para capturar jegues na estrada.

Não vê mistério na profissão: — Laçar jumento é fácil, boi também.

Difícil é laçar cachorro brabo e porco solto pelas ruas — diz Nildo que, depois de trabalhar 12 anos numa fazenda, hoje está a serviço da prefeitura e da PRF no trabalho.

Ele tem orgulho de, em um só dia, ter laçado 19 jumentos. Há uma semana, conseguiu, com uma manobra só, prender a mãe e o filhote. Os bichos ficam 15 dias no centro de zoonose da prefeitura, até que os donos apareçam, o que nunca acontece.

Eles são doados ou levados para áreas distantes de caatinga.

— Depois das motos, os bichos aumentaram muito na estrada. Em tempo de seca é pior, pois eles saem da caatinga atrás de comida.

É difícil um dono vir buscar. Eles vêm buscar bode, porco, mas jumento, coitado, fica tudo por aí. O governo devia lançar uma vacina (anticoncepcional).

A prefeitura de Serra Talhada está preocupada com a invasão de jumentos no Centro e também na BR232, que corta o município. Tem servidores/ laçadores, para recolhê-los na cidade, e fez um convênio com a Polícia Rodoviária Federal para apreensão dos animais na rodovia. A PRF cede um caminhão boiadeiro com motorista e a prefeitura entra com um laçador e um espaço para guardar os animais apreendidos.

Em 2009, a PRF apreendeu 95 jumentos na área, contra 170 até o dia 4 de agosto de 2010, quando O GLOBO esteve em Serra Talhada. Os bichos apreendidos, no entanto, nunca são resgatados pelos donos, porque o valor da multa arbitrada — R$ 10 por animal — é o dobro do valor de mercado por cabeça.

— Com a invasão das motos, um jumento sai por R$ 5. Quem resgata é porque o bicho é de estimação — diz o prefeito Carlos Evandro.

Fonte:Favre


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