O cirurgião Luiz Antonio Santini, diretor-geral do Instituto Nacional do Câncer (Inca) desde 2005, enfrenta um grande desafio. O instituto que dirige, responsável pela coordenação de políticas de prevenção e controle de câncer no Brasil, assistirá a uma transformação na próxima década, quando a doença se tornará a principal causa de óbitos no país, ultrapassando os problemas cardiovasculares. Embora o país tenha conseguido reduzir drasticamente o tabagismo, principal razão do câncer de pulmão, após a adoção de políticas de saúde pública bastante efetivas, ainda há muito o que fazer em relação às demais variantes do mal. Um bom começo seria convencer a população a adotar hábitos saudáveis, como dieta balanceada e prática de exercícios físicos, além de menor consumo de bebidas alcoólicas. De acordo com levantamento realizado pela União Internacional do Controle de Câncer (UICC) — entidade da qual Santini é membro — e divulgado na última sexta-feira, essas atitudes poderiam prevenir 61.000 novos casos de câncer no Brasil a cada ano, incluindo o de estômago (41% de todas as ocorrências), intestino (37%) e mama (28%). Com base em dados como este, e por conta do Dia Mundial do Câncer, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou as novasRecomendações Globais de Atividades Físicas para a Saúde, em que sugere a realização de 150 minutos de atividade física por semana. Em entrevista ao site de VEJA, Santini explica o que falta para avançar na prevenção contra o câncer, e o que o Inca pode fazer para tornar disponível na rede pública os melhores tratamentos contra a doença.
Dados da UICC mostram que 61.000 casos de câncer poderiam ser prevenidos com a adoção de hábitos saudáveis. Em geral, as pessoas sabem que precisam comer melhor e se exercitar, mas mesmo assim não o fazem. Que políticas públicas devem ser adotadas para reverter esse quadro? Nesse aspecto de prevenção, nossa principal ação é a comunicação. Na questão do tabagismo, que é um dos fatores de risco para vários tipos de câncer, o Brasil desenvolveu ao longo dos últimos 20 anos uma política pública de excelente resultado. Conseguimos reduzir a prevalência de tabagismo na população de 37% para cerca de 17%. Essa é uma política pública efetiva.
Como o Brasil também pode combater efetivamente outros problemas, como a má alimentação? Em relação à atividade física e a alimentação, além dessas ações de comunicação e informação, também existe a possibilidade da atuação dos órgãos reguladores. Cabe à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e as vigilâncias estaduais negociar e controlar especialmente a presença de produtos que também são comprovadamente fatores de risco para câncer, como por exemplo o sódio (sal), que é excessivo em vários tipos de alimentos, e as gorduras trans. São políticas públicas que podem e devem ser implementadas no Brasil. O Ministério da Saúde já tem trabalhado e negociado com as indústrias da área de produção de alimentos para obter essa redução desses elementos. Ainda na área de regulação, é preciso controlar as substâncias cancerígenas presentes em agrotóxicos e no amianto, uma substância utilizada na construção civil e na fabricação de peças automotivas. Em todos esses aspectos a regulação e a legislação são capazes de reduzir ou banir a utilização desses produtos.
O combate ao fumo conseguiu reduzir significativamente a parcela de fumantes no país. Hoje, as pessoas associam o fumo a uma condição maléfica para a saúde. Falta uma ação de comunicação mais agressiva para conscientizar a população sobre hábitos ideais, como uma campanha nacional de combate ao câncer? Sim, acho que falta. Mas não é uma ação pontual. A ação de comunicação nesse caso é uma ação permanente. Ao mesmo tempo em que há uma ação de comunicação para informar os malefícios de uma dieta, há estímulos ao consumo de fast-food e refrigerantes. Na verdade, esse problema não é só do estado e do governo. É um problema da sociedade como um todo. Apesar de existirem advertências sobre a difusão e a divulgação de informações benéficas, existem também outros interesses, inclusive econômicos, que se manifestam. Claramente vemos um conflito de posições.
Atualmente, o câncer é a segunda causa de morte no Brasil e no mundo. Acredita-se que a doença estará em primeiro lugar nos próximos anos. Como o Brasil está se preparando para isso? Na maioria dos países desenvolvidos, o câncer já é a primeira causa de morte. A mortalidade por doenças cardiovasculares em países da Europa e nos Estados Unidos já está sendo reduzida. O primeiro passo, como já falamos, é trabalhar intensamente na questão da prevenção. O segundo é qualificar e organizar o serviço de saúde para que o paciente tenha acesso, diagnóstico e a possibilidade de tratamento o mais precocemente possível. Para isso, existem alguns tipos de câncer que felizmente oferecem essa oportunidade. Um deles é o câncer de colo do útero, que é o segundo tumor mais frequente nas mulheres. Basta que a população realize os exames preventivos de forma adequada e depois tenha acesso ao tratamento. O Brasil vem trabalhando desde a década de 70 em uma política de implementação dos exames papanicolau e já temos resultados na redução da incidência e da mortalidade do câncer do colo do útero.
Mas o acesso a esse tipo de exame ainda não está disponível em algumas regiões do país. De fato, isso não ocorreu igualmente em todas as áreas. Tivemos uma redução de ocorrências e de mortalidade no Sul e Sudeste, que não ocorreu no Norte e Nordeste. Por conta disso, estamos desenvolvendo um programa especificamente voltado para esses locais. Outra medida importante é a detecção precoce do câncer de mama, o mais frequente e o que mais mata as mulheres. É preciso que haja diagnóstico precoce e acesso rápido ao tratamento. Disponibilizamos mamografias para todas as mulheres no país e desenvolvemos um sistema de informação que permite um acompanhamento das mamografias e a qualidade desses exames. Em 2009, o Brasil realizou cerca de 11 milhões de exames papanicolau e 2,7 milhões de mamografias. Nossa meta para 2011 é realizar em torno de 4 milhões de mamografias. Isso significa a possibilidade de reduzir a mortalidade do câncer de mama.
O envelhecimento da população também é uma preocupação? O envelhecimento é um fator de risco para o câncer. No caso do homem, o câncer de próstata é mais frequente em homens mais velhos. Infelizmente não é possível prevenir, mas também podemos detectar precocemente e tratar o mais cedo possível, a partir de exames clínicos periódicos.
Qual é o grande desafio do novo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em relação ao câncer? O desafio do novo ministro é dar continuidade ao trabalho que vem sendo feito em relação ao controle de câncer no país. O Brasil tem uma política de controle de câncer estruturada, tem legislação, portarias ministeriais, um pacto que é feito entre o Ministério da Saúde e os secretários estaduais e municipais de saúde e a implementação das políticas de prevenção. Acho que o novo ministro tem à sua disposição uma série de recursos que já estão sendo desenvolvidos na área de controle de câncer. O grande objetivo é que ele dê continuidade a esses programas.
Não há nada que precise melhorar? Claro. Tudo precisa melhorar. Dar continuidade não significa manter tudo igual. Dar continuidade significa avançar naquilo que está sendo feito, melhorando sempre. Dentro da mamografia, como falei, existe um programa de qualidade do exame. A mamografia é um exame de imagem, que requer um aparelho adequado, um técnico adequado e uma análise da imagem. São muitas possibilidades de problemas que podem ocorrer ao longo desse pequeno trajeto entre a realização do exame e o laudo. Tudo isso precisa ser aperfeiçoado. Não estou dizendo que a situação do câncer no Brasil é o melhor dos mundos. Há muita coisa para fazer, mas é preciso dar continuidade ao que está sendo feito.
As pessoas que dependem do Sistema Único de Saúde nem sempre têm acesso aos tratamentos de ponta. O que falta para oferecer um tratamento universal de qualidade? Excluindo os países europeus, que têm o sistema de saúde mais avançado, o Brasil é um dos países onde a maior parte da população tem o melhor acesso a esses tratamentos de ponta – em relação aos países latino-americanos ou até mesmo aos Estados Unidos. O nosso problema não é garantir tratamento de ponta. E, sim, garantir igualdade no acesso. Nós temos uma distribuição regional de recursos e serviços desigual. Essa desigualdade não acontece só na área da saúde. É uma desigualdade de renda, de acesso a serviços públicos e de saúde. Infelizmente, a saúde acompanha esse quadro. Isso só vai melhorar na medida em que essa desigualdade diminua. Não há como resolver um problema setorial específico. Quando todas regiões passarem a se desenvolver, elas irão aumentar a capacidade de implementar soluções e tecnologias, tendo recursos para se desenvolver.
Falta pessoal especializado? Em algumas regiões do Brasil, há a necessidade de disponibilizar equipamentos de radioterapia. No entanto, não é só uma questão de adquirir o equipamento. Para fazer isso, você precisa ter técnico, engenheiro, radioterapeuta, enfermeiros. Uma série de recursos de que, muitas vezes, as regiões não dispõem. Não é só uma questão de tecnologia, de equipamento ou de aparelho. É uma questão de desenvolvimento global da região. A desigualdade de acesso à saúde não é relativa a medicamentos de ponta e diagnósticos. É uma desigualdade regional.
Mas o que está sendo feito para formar médicos e técnicos especialistas em oncologia? No Inca, temos um programa que forma mais de mil pessoas, entre técnicos, médicos, residentes, pós-graduados, doutores e mestres. Existem outros programas no Brasil. Temos 268 hospitais no Brasil que fazem atendimento de câncer. Porém, nem todos esses hospitais estão habilitados a formar pessoas em termos de residência médica. Existe uma regulamentação do Ministério da Educação que determina que o Inca participe da formulação de pré-requisitos para a formação de especialistas. Nossa proposta é qualificar pelo menos dois centros em cada região para formar pessoal. Estamos desenvolvendo com a Universidade Federal do Pará um programa que, com o apoio do Ministério da Educação, vai formar dez doutores em pesquisa de câncer na região Norte.
É suficiente? Nunca é suficiente. Sempre falta alguma coisa.
Como o senhor vê o tratamento de câncer no futuro? É um desafio muito grande. O que se observa, na história natural do câncer, é que ao longo dos últimos 70 anos de existência do Inca, a cirurgia oncológica e a radioterapia têm contribuído muito para o tratamento e a cura de alguns tipos de câncer. As novas drogas quimioterápicas que surgem também. A expectativa para o tratamento do câncer no futuro é promissora. As pesquisas estão caminhando para melhorar e já estamos vendo muitos resultados. Com um esforço enorme, investimento em pesquisa e gestão dos serviços, isso tende a melhorar.
Fonte:Revista Veja
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