A força da tradição


Minha intenção hoje era falar sobre a força das tradições, principalmente das tradições juninas no nordeste brasileiro, mais especificamente no sertão. Em verdade, relembrar um pouco, tentar traçar um paralelo entre os festejos de hoje e os festejos que vi e vivi na minha infância, e mesmo depois de adulto, alguns anos atrás.

Pode nem parecer, mas muita coisa mudou, e embora veja tudo agora com um pouco de nostalgia, às vezes preocupado com o rumo que toma nossos festejos juninos, mas lá no fundo fico contente, em ver pelo menos permanecendo viva esta tradição, que acaba por tornar-se de suma importância para toda região nordeste, pois nos une nos fortalece como região.

As comemorações juninas, em louvor a São João, é uma tradição que herdamos da nossa colonização européia, e tais festejos é comemorado em diversos países da Europa, e que aqui, no sertão brasileiro, ela enraizou-se, vestiu-se dos costumes locais, assimilou nosso sotaque matuto e acabou por transformar-se numa marca do povo nordestino, mas este vai ser um assunto que vamos comentar depois, pois hoje, ao amanhecer do dia, deparei-me com outro assunto, que também mexe com tradições e cultura.

Fiquei sabendo que existe um movimento para mudança do nome da cidade de EXU, a terra do rei do baião, Luiz Gonzaga, isso tenho certeza que todo mundo sabe, afinal, nosso eterno rei, Lua Gonzaga, foi aclamado o pernambucano do século, e com muito louvor, diga-se de passagem, e ele, Lula, fazia questão de decantar aos quatro cantos, por onde passava o nome de sua querida Exu, fincada no sertão do Araripe.

Pois bem, na minha adolescência, já ouvia falar de movimentos que desejavam a mudança do nome da cidade, na época, lembro-me, um movimento alimentado pela guerra travada entre duas grandes famílias daquele município, Alencar e Sampaio, que deixaram um rastro de sangue que acabava por denegrir o nome da cidade, berço de tão ilustre filho.

Alguns, mais supersticiosos ligavam tais desgraças ao nome da cidade: EXU, que erroneamente, para alguns, na umbanda é tido como o diabo, uma interpretação equivocada quando da colonização com a chegada dos negros no Brasil.

Bem, mas errado ou não, o certo que foi isto que propagou-se, a associação do Orixá Exu com Satanás permanece até hoje, e este era um dos motivos que levavam alguns habitantes da querida cidade sertaneja de Exu a pleitearem a mudança do seu nome, para quem sabe aplacar a sede de vingança das duas famílias que se degladiavam.

Mas então o rei do baião entrou em cena, intermediou diálogos, conversas, que culminaram com o fim da contenda, e Exu voltou a viver em paz, voltou a brilhar no cenário brasileiro como a terra do maior sanfoneiro do país, a terra daquele que fez nossos ritmos, como: forró, baião, xaxado, xote e outros tipicamente nordestinos. Serem apreciados e respeitados no sul e sudeste.

Com Lula Gonzaga ganhamos espaços na mídia e pudemos mostrar nossos talentos.

Agora vem novamente a polêmica da mudança da cidade. Confesso que ainda não sei os motivos para tal, mas não duvido que novamente esteja aí inserido a questão supersticiosa e religiosa.

Não sou cidadão de Exu, e sei que não me cabe opinar sobre o assunto, mas, como sertanejo, como defensor das tradições sertanejas, alerto ao povo daquele querido município, para antes voltarem os olhos para história do município, uma história recheada de fatos marcantes, de fatos históricos, construídos por um povo forte e destemido, e mais, o nome Exu sempre vai nos remeter ao velho Lula Gonzaga, o rei do baião.

Tarcísio Rodrigues (escritor e jornalista)

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1 Comentários

  1. Quero concordar plenamente com Tarcísio e aproveitar para pedir, já que ele além de ser um defensor da cultura e das tradições, é também um dos que fazem parte da comissão de festas da nossa cidade, que pense nisso quando estiver reunido com o restante da comissão, pois fazer festa de São João com Companhia do Calipso, Capim Cubano e outras coisas parecidas é sem dúvida matar e enterrar as nossas tradições.

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